DONA RAIMUNDINHA A CATEQUISTA


Nascida na comunidade Guajará aos 17 de julho de 1917, Raimunda Bentes Pereira, a dona Raimundinha, ficou órfã de mãe aos 5 e aos 10 anos, de pai, ficando sob a tutela de seu tio Barbosa. Seus pais chamavam-se Cassiano Antonio Bentes e Raimunda Bentes Santos. Achando-se sem condições de cuidar dela, seu tio a levou ao orfanato São José e a entregou à madre superiora para ficar internada. Lá recebeu educação religiosa, ensinamentos para cuidar de animais e de agricultura, atividades que desempenhou até quando foi entregue aquele que seria seu esposo, Hilarião Pereira dos Santos, um trabalhador do campo, nascido em Canindé no Ceará, que era um dos contratados pelas freiras para serviços de agricultura e pecuária. Contava ela que sua vontade era estudar e ser freira, mas por obediência à madre superiora, casou-se com aquele que posteriormente seria o pai de seus 11 filhos, sendo dois prematuramente levados ao Pai, este que aqui escreve é o mais novo dos filhos.
No histórico da comunidade São José, consta que em 1910, a Congregação de Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição percebeu a necessidade de atendimento para crianças órfãs e começaram a desenvolver ações. Com o crescimento do número de religiosas, em 1919 foi solicitado ao Governo Estadual uma área localizada onde hoje é a comunidade São José. O local passou a ser residência das religiosas, crianças órfãs e posteriormente a Escola São José.  
Casados, meu pai tratou de adquirir um terreno para erguer sua casa, e conseguiu onde posteriormente seria parte da comunidade Igarapé do Pimenta, mas na época lá, chamava-se Sítio Limão onde passou a cultivar a agricultura.
Aos seus nove filhos, aqui citados na ordem de idade, deram os nomes de: José, Daniel, Estevam, Simeão, Bernardino, Alberto, Rodolfo, Emanuel e João, com o sobrenome Bentes Pereira.
Mesmo como mãe de família dona Raimundinha mantinha estreita ligação com as irmãs, tanto do São José quanto do Colégio Santa Clara, em Santarém, onde era sempre bem recebida, eu, fui sua companhia durante muitos anos e testemunho estes fatos. Meu pai também mantinha proximidade com a comunidade de São José, onde aos domingos tinha autorização para vender o café da manhã para as pessoas que iam à missa. Na época o leite não era tão comum, era o café mesmo ou Nescau com pão e manteiga.
Com a formação religiosa adquirida no orfanato, dona Raimundinha mantinha consigo a força e a vontade de levar em frente o que aprendeu. Na família mantinha a prática da oração pessoal e oração em família, na qual dava a responsabilidade a cada um dos filhos para fazer parte das orações em família.
Na comunidade de Igarapé do Pimenta, foi a primeira catequista da comunidade. Fazia a formação para primeira comunhão e para a crisma, ajudava na organização da igreja às vezes na companhia da dona Siloca, que morava próximo à igreja. Nas organizações para a celebração e festa da padroeira Santa Brígida, gostava de se envolver. Fazia visitas às casas de pessoas de comunidades próximas como Andirobal e famílias do Sr.Claudino, dos Sabinos e dos Barros e outras mais, pedindo doações para a festa, seja para leilão, bingo ou para o mastro da festa. Havia pessoas que faziam promessas e também doavam.
Enquanto catequista fazia parte da integração entre as comunidades vizinhas como Lavras, Cedro, São Brás, Ponte Alta e Irurama nas quais juntamente com a equipe participavam das celebrações, seja do padroeiro, de tríduos ou da semana catequética.
Na sua comunidade, com seu carisma, conseguia o respeito de muitas pessoas. Durante as celebrações, seja do culto ou da missa, era bem crítica quanto ao respeito ao momento da oração, é lembrada por muitos colegas por suas cobranças, quando alguém estava fazendo algum barulho do lado externo da igreja que interferisse na concentração para a celebração. Pais que levavam filhos e que ficavam correndo lá fora, ela ia até eles os convencia a entrar para a celebração, o mesmo ocorria quando alguns resolviam “bater uma bola” no campo, ela ia lá e eles a respeitavam,mesmo adultos, parando o barulho. Isso sem que fosse necessário ela elevar o tom da sua voz contra qualquer um deles, a menos que houvesse a insistência ou resistência.
Havia um tempo em que na comunidade havia a celebração do sagrado coração de Jesus, com orações nas casas das famílias, havia pessoas que faziam alguma promessa e envolvia a celebração do Terço, minha mãe era chamada para dirigir, o mesmo quando havia alguma ação de graças ou quando havia pessoas enfermas que necessitavam de oração ou nas vigílias de falecidos . Ela gostava de exercitar sua fé Cristã e de levá-la a outras pessoas.
Quando meus pais foram morar em Santarém, deixando a comunidade pois meu pai precisava tratar sua saúde, minha mãe buscou fazer parte da comunidade e conseguiu ser autorizada e certificada pelo bispo Dom Lino para ser Ministra Extraordinária da Eucaristia na comunidade Cristo Ressuscitado no bairro da Matinha. Desta forma ela conseguia cumprir sua missão indo levar a sagrada eucaristia aos enfermos que não podiam ir à celebração na igreja e quando necessário até a extrema unção.
Mulher de voz calma, porém firme quando necessário, carinhosa com seus filhos por quem fazia suas orações todos os dias pedindo a proteção Divina.
Teve sua missão encerrada em sua própria casa, quando foi chamada ao Pai em 02/05/2001, deixando seu exemplo de vida.
Uma música ou hino que nossa mãe gostava de cantar chama-se “Você é meu irmão” que cantava apontando para as pessoas.
Pode ser ouvida nestes links




   Uma foto com a simplicidade que a representa com seu quase sorriso

    Dona Raimundinha discursando em um dos votos do Irmão Alberto, seu filho. No Centro Dom Tiago Rayan bisco da Diocese.

   Em seu aniversário organizado pela familia do Daniel, seu filho que está ao seu lado e Elenilson genro do Daniel.

Da esquerda para direita: Bernardino, José, Daniel, João, Simeão e Emanuel. Sentados, meu pai e minha mãe Hilarião e Raimunda em uma celebração de final de ano. Faltam nesta foto Alberto, Estevam e Rodolfo. Meu pai já não enxergava.

    Foto de 2015.Interior do orfanato São José onde dona Raimunda ficou por vários anos. Na foto, minha esposa Telma conhecendo o local.

   Neste local meu pai fazia e vendia o café da manhã após a Santa Missa.Este da foto sou eu, João.


     Foto mais ampla do local de acolhida onde minha mãe morou como interna.
VOCÊ É MEU IRMÃO
Procuro alguém que cante
Comigo esta canção
Que venha repartir
Comigo o coração
Que saiba dizer sim
Que saiba dizer não
Que diga “sim” à vida
Mesmo quando ela diz “não”
E quero um companheiro
Que me aceite como irmão
Você é meu irmão
Você é meu irmão
Você, você,
Você é meu irmão
Ao longo do caminho
Eu rezo uma oração
Que é feita de esperança
Que vai no coração
Que sabe dizer “sim”
Que sabe dizer “não”
Sorri para a verdade
E não mergulha na ilusão
E quero um companheiro
Que aceite como irmão
Eu faço um mundo novo
Ao longo dos meus passos
Enquanto existe povo
Não sei o que é cansaço
O mundo está melhor
Pois hoje eu sei sorrir
E levo meu sorriso
A quem padece a solidão
E quero um companheiro
Que me aceite como irmão
Ajudaram com informações:
Emanuel Bentes e Dorivaldo Sampaio
Site da Câmara Municipal de Santarém
https://santarem.pa.leg.br/escola-sao-jose-planalto-santareno-comemora-100-anos-de-fundacao/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Formação da Comunidade Boa Esperança