ESTUDAR - ESCOLA SANTA BRÍGIDA E ESCOLA SÃO JOSÉ
No dia 17 de setembro de 1.919 a câmara municipal de Santarém se reuniu em seção solene para homenagear os 100 anos de Fundação da Escola Conveniada de Ensino Fundamental e Médio São José, localizada no Planalto, distante 19 km da cidade Santarém.
Conforme histórico relatado na Câmara de vereadores, em 1910, a Congregação de Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição percebeu a necessidade de atendimento para crianças órfãs e começaram a desenvolver ações. Com o crescimento do número de religiosas, em 1919 foi solicitado ao Governo Estadual uma área localizada onde hoje é a comunidade São José. O local passou a ser residência das religiosas, crianças órfãs e posteriormente a Escola São José, instituição que começou a funcionar oficialmente em 10 de outubro de 1919, com 78 alunos das comunidades próximas.
De acordo o depoimento de uma vereadora nascida na comunidade de Cipoal e que foi aluna e professora naquela Escola, para que os alunos do Cipoal pudessem estudar na Escola São José, deveriam caminhar 5 km a pés até a Escola, 10 km portanto, ida e volta, fato que eu também constatei.
Para os alunos da comunidade de Igarapé do Pimenta, havia poucas opções de avanço escolar, pois a escola tinha ensino até a 4ª série do primário, atual ensino fundamental, nos anos 70. Para estudar as próximas séries havia a opção de conseguir vaga na Escola João XXIII na Colônia Cipoal ou direto para a Escola São José que neste caso, tinha até a 8ª série.
Ocorre que devido a vários fatores, muitos alunos não conseguiam avançar nos estudos. Alguns pais achavam que os filhos ainda não tinha maturidade suficiente para andaram a pés um trecho tão distante e sozinhos. Quando conseguiam combinar com um dos moradores que também tinham a mesma dificuldade, então era uma ótima opção, pois um fazia companhia ao outro e dessa forma reduzia a preocupação dos pais, principalmente quando eram filhas.Havia alguns que já tinham mais idade e não havia estas preocupações.Quem tinha parente em Santarém e podia, enviava seus filhos para lá para estudar.
Era uma incógnita, pois alguns pais preferiam seus filhos ajudando nas atividades da família que julgavam ser mais importante para a sobrevivência da mesma a ter que estudar, pois tomava tempo, era algo da cultura brasileira,não exclusiva somente da comunidade. Outro fator era o custo do fardamento e do material escolar que nem todos podiam arcar.
Desde 1945, várias professoras lecionaram na Escola Santa Brígida, dentre elas: Raquel Freire, Dalgiza Freire, Maria dos Anjos(filha do Sr.Manezinho) Dorivaldo foi aluno dela, Nazaré Sampaio, Estelevita, Maria José, ultimamente a professora Rosimar Castro por 28 anos, recentemente aposentada, cuja homenagem feita consta do registro abaixo, além de outras não recordadas no momento.
Estudar na Escola Santa Brígida, para mim, foi muito importante. Lá, tínhamos sim muita limitação, mas não faltava dedicação das professoras. Tive a grata oportunidade de estudar com as professoras Estelevita e Maria José, esta, mãe dos meus amigos "Neco", "Jango" e "Bruguelo",- comum nos conhecermos pelo apelido. Além de aprender as primeiras letras, também nos era ensinado a responsabilidade com o senso coletivo como no caso da merenda escolar por exemplo e o zelo pela escola. Lá estudei de 1972 a 1975.
Havia equipes para varrer e para lavar a escola; também havia equipes para ajudar na merenda escolar, havia uma senhora que preparava, no entanto era necessário o abastecimento da água para a escola (potes) e para o preparo da merenda. Para isso, havia o revezamento de equipes para buscar água. A equipe levava uma grande panela, com alça forte na qual um aluno pegava em cada lado e se dirigia até o Igarapezinho, para quem lembra ou não sabe, havia uma grande ladeira e ficava cerca de 1,5Km de distância da escola. Tomávamos banho e em seguida subíamos carregando a grande panela, fazendo o revezamento para o outro descançar.
Não pense que os alunos se lamentavam por fazer isso. Também os pais não diziam nem viam como exploração, era a necessidade e dever e fazíamos às vezes até nos divertindo e não era o impedimento para estudar. Incutia-se o senso de responsabilidade naqueles alunos que buscavam o conhecimento e a sociabilidade.
Havia somente até a 4ª série na Escola Santa Brígida, então o aluno necessitava conseguir vaga na Escola João XXIII na Colônia Cipoal que não tinha até a 8ª série, ou na Escola São José que tinha até a 8ª série, isso nos anos 70, se conseguisse vaga era um grande avanço. Sim, havia a possibilidade de não conseguir vaga para estudar e assim frustar o sonho.
Neste caso, em busca do sonho de concluir o 1º grau, o aluno enfrentava a caminhada de cerca de 12 km para ir e 12km para voltar, a pés até a Escola São José. Isto enfrentando as intempéries do tempo, quando havia chuva, roupas e cadernos em uma sacolá de plástico. Na estrada Santarém Cuiabá, que era de piçarra, poderia pegar um "banho de lama", e no o verão "banho de poeira". Antes de chegar a escola achava-se um local para trocar de roupa e chegar mais humanizado. Muitos combinavam horário para fazerem o trajeto juntos, com sorte conseguiam uma carona, mas isso raramente. No meu caso estudei lá até 1979.
Conheci colegas que vinham de outras comunidades, como Colônia Prata, Morada Nova e outras mais que pegavam o pau-de-arara às 2:00h da madrugada, traziam o almoço, após a aula dividiam entre sí, frio mesmo, e pegavam às 3:00h da tarde de volta o veicuclo para suas casas, todos os dias. Nós que íamos pela Estrada se tivéssemos dinheiro tomávamos um copo de Kisuco com pão, uma delícia, na taberna antes de voltar.A geladeira era a querosene.
Alguns anos mais tarde, saindo do Pimenta ou do Cipoal, alguns alunos conseguiram bicicletas, durante algum tempo tive alguns colegas que faziam companhia, como Raimundinho e Conceição do Senhor Antônio Seringueiro. Quando chovia um ajudava o outro a desatolar a bicicleta ou levar sobre os ombros, pois não dava para empurrar.
Como se observa, cada período era como a fase ou nível de um jogo de aplicativo. Quem tivesse como objetivo vencer por meio do estudo, dava um passo a mais no meio escolar, se tivesse boas notas.Depois de cada ano, comemorava-se a vitória até conseguir concluir o sonhado 1º grau. No meu caso, o último ano ano, ou seja a 8ª série já foi em Santarém no Colégio Pedro Álvares Cabral em 1.980. No Colégio Felisbelo Jaguar Sussuarana cursei a 1ª e 2ª séries do Segundo Grau em Contabilidade e 1983 já em Manaus, concluí o então 2º grau como Técnico em Contabilidade, depois duas graduações, a última em 2018 e uma pós graduação.
Ao citar estes fatos históricos, a finalidade de forma alguma é autopromoção ou vitimização. A finalidade das postagens sempre será procurar mostrar que perseguir os sonhos, apesar de não ser tarefa fácil, não é impossível. Que dificuldades todas as pessoas enfrentam e enfrentam todos os dias. Todos os dias há um leão a ser vencido, todas as pessoas estão tentando a cada momento vencer seus obstáculos, por mais que não deixe transparecer às outras pessoas. As conquistas não são somente por meio dos estudos, claro, cada um vai buscando o caminho que lhe parecer melhor de acordo com seus anseios e possibilidades. A vida é feita de opção e a todo momento tomamos decisões, se são certas ou não, o tempo nos dirá.
Atualmente estudar se transformou algo bem menos difícil. Há programas do governo que incentivam o transporte dos alunos, seja terrestres ou fluvial, bolsas de estudo, faculdades à distância ou semi presencial,salas com ar condicionado, enfim, há mais facilidade. Espera-se que essas e outras facilidades venham motivar nossos jovens a aproveitar ainda mais essas oportunidades e olhando para o história dos estudantes de outrora seja um ingrediente a mais para sua motivação, caso sua opção seja estudar.
Com relação a Escola Conveniada de Ensino Fundamental e Médio São José, que antes já se chamou Escola Primária São José e Escola de 1º grau São José, copiamos abaixo a fotografia da homenagem aos seus 100 anos, na qual constam dois irmãos meus, Alberto Bentes que é irmão da Congregação Católica Santa Cruz e Emanuel Bentes, atualmente advogado em Santarém.
Vale um comentário, que nos anos 70, na escola São José, havia um grande evento estudantil, envolvendo shows musicais e shows de calouros (cantores), bastante concorrido e participativo.O locutor Ednaldo Mota, que em 2018 lançou seu livro de 40 anos de Rádio, era o apresentador, geralmente era o Grupo os Hippes que fazia o acompanhamento musical cujas músicas da época podem ser ouvidas no yotube. Mas haviam outros como 5a.Dimensão, Som Tapajoara....
Abaixo a Escola Santa Brígida, em dois momentos, nos anos 80 já bastante deteriorada pelo tempo, com a professora Rosimar Castro (que nos forneceu a foto) sendo homenageada, e atualmente, felizmente, já bem restaurada.
Com apoio de Dorivaldo Sampaio, e site da Câmara de vereadores de Santarém.
Nos anos 80, homenagem a professora Rosimar Castro no interior da Escola, que já necessitava muito de ser restaurada
Atualmente, escola construída, nova com melhores instalações.
Interior da Escola São José.Ao centro onde havia os shows de calouros cantores anos 70. Foto de 2016.
Interior da Escola, próximo às salas de aula. Foto de 2016.





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