A SAGA DOS MORADORES - TRANSPORTE

A locomoção é parte do direito de ir e vir do cidadão. Como os moradores se locomoviam da comunidade Igarapé do Pimenta para a cidade de Santarém será o assunto a ser comentado nesta edição.

Como pode-se observar em postagens anteriores os primeiros moradores começaram a chegar por volta de 1.910 e 1.920. A distância entre a comunidade e a cidade de Santarém é em torno de 20Km. Havia uma estrada, que atualmente é a BR 163 Santarém Cuiabá ao longo da qual haviam-se instaladas há não muito tempo, muitas famílias, grande parte delas advindas do Ceará, em decorrência principalmente de uma grande seca orrida na região Nordete do País.

Os moradores da comunidade precisavam adquirir produtos para sua subsitência, como alimentação e suprimentos e para isto precisam vender o que dispusessem de produção como produtos agrícolas, animais de criação doméstica, frutas, mais tarde sernambi, do látex da seringueira, e bem mais depois na década de 70, o gado bovino, malva e maior produção de arroz. Para isto era necessário deslocar-se até a cidade de Santarém. Durante o decorrer dos anos muitas foram as opções buscadas para alcançar esses objetivos.

Por volta das décadas de 60 e 70, uma das possibilidades, inicialmente, era seguirem a pés ou no lombo de burros  ou cavalos - quem tinha melhor condições financeiras comprava um, por um caminho que construíram passando pelo local conhecido como Andirobal e que ao seu final chegava-se a estrada citada acima, onde atualmente é o 8º BEC, precisamente onde agora é o posto de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal. Isto, independentemente se o tempo estivesse de chuva ou não; não havia lanterna, porongas (pesquise) ajudavam. Se houvesse chuva, o caminho ficava escorregadio e não havia proteção contra a chuva.

O caminhão que vinha e que as pessoas precisavam pegar passava por volta das 3h ou 4hs da manhã.Inicialmente havia apenas um, não podia se dar ao luxo de "perder", neste caso, ou seguiam a pés ou retornavam.E se houvesse produtos para levar, já se pode imaginar.

O trajeto era longo e a fome checava para todos. Quem tivesse recursos fazia o desjejum enquanto aguardavam o transporte. Para este local,  para preparar o desjejum, algumas famílias se alternaram das quais é possível citar: Sr.Metom, Dona Júlia, Manoel Pereira, Antônio Seringueiro. Os produtos para o desjejum eram café com pão, nescau, tapioquinha, pão de milho e alguns mais. Faziam suas negociações na cidade e ao retornarem faziam o caminho inverso.

Com o decorrer dos anos foram surgindo outras alternativas, conseguiram transformar o caminho em ramal; outras opções foram construídas, como um ramal a partir da bifurcação onde atualmente é o campo do Cruzeiro do Andirobal em direção a estrada principal acima citada passando pela comunidade Cipoal,  hoje Ramal do Pimenta, outro ramal foi construído ligando o Cruzeiro à Colônia Lavras; uma picada saindo desse ramal em direção à atual Santarém Cuibá chegando ao local posteriormente chamado de "Parada das Castanheiras" do qual minha família utilizava-se.Nas proximidades desta picada, mais conhecida como "pico" moravam famílias como dos Claudinos, dos Sabinos e dos Rita, meu pai era de origem desta última cuja mãe se chamava Maria Rita, vizinhos a nós morava a família Oliveira do Sr.Vivico.

Outras opções de transporte foram sendo conseguidas, por vezes necessário pedir-se encarecidamente por mais de uma vêz para o condutor entrar no ramal devido às condições do mesmo, no inverno havia muito atoleiro, caminhões ficavam por horas tentando sair, correntes eram colocadas nos pneus para  ajudar não atolar, passageiros empurravam, chamava-se outro carro para puxar ou tratore. Às vezes se conseguia tratores ou outro caminhão para substiutir.

Foi-se conseguindo alguns que faziam "linha", isso quando já era fixo e em dia fixo, normalmente aos sábados mas ocorriam em dia de semana, o que não agravada muito aos moradores.

Com o aumento de moradores, casamento dos filhos e das filhas  e o consequente aumento da produção, foram-se instalando pequenas e médias indústrias de beneficiamento de arroz. Neste caso, os produtores ou contratavam uma caminhonete ou caminhão, dependendo do poder aquisitivo e da produção ou acertavam um preço com o uzineiro para buscar a produção de arroz em casca e ensacado.

Foram-se chegando também alguns conhecidos de moradores que ao atender ao chamado do morador também levava alguém como passageiro ou simplesmente dava uma carona e se a pessoa quisesse pagava algum valor.

Alguns moradores começaram a ter seu próprio caminhão que assim atendiam também ao demais moradores como opção de linha, termo que se usava quando tinha dia e caminhão fixos.

Quando o morador que buscava ir à cidade e para isto dependia de "pegar a linha", também precisava acordar cedo da madruga e ir para o ramal, se ocorresse de o caminhão passar e se ele não estivesse no local, aguardava-se alguns minutos e se o mesmo não chagasse, o motorista seguia a "linha". Neste caso, o morador teria que se deslocar a pés até a atual Santarém Cuiabá. O morador avisava antes a algum vizinho que iria pegar o caminhão para que ele aguardasse.
Esses caminhões não tinham muita segurança, nesta época as Leis de trânsito não exigiam tanto. As pessoas iam em pé apoiando-se umas às outras, sentadas sob as mercadorias ou na própria lateral da carroceria sentado. Havia uma corrente ou corda bem no meio, de um lado ao outro da carroceria que servia de apoio. Posteriormente alguns foram desenvolvendo melhorias como tábuas atravessadas que serviam de assento. Geralmente dava-se preferência às mulheres para sentarem-se. Apesar disso, não houve um registro se quer de acidente que envolvesse gravidade com os passageiros.

Alguns dos motoristas em épocas diversas:
Dário Sampaio - morador da comunidade fazia linha;
Abdoral - morador fazia linha;
Zé Piolho - não fazia linha mas atendia a quem pudesse;
Zé Bacurau - morou na comunidade e fazia linha;
Luiz Augusto - morava no cruzeiro, não fazia linha mas dava carona;
Feitosa - morava no Cruizeiro e fazia linha;
Chicola - usineiro e fazia linha;
Dori - usineiro e fazia linha;
Zeca Fernandes - usineiro e fazia frete;
Josué Monteiro - fazia linha;
Antônio Aquino  - fazia linha;
Brechó - fazia linha.

Na atual Santarém Cuiabá que antes era uma estrada de rodagem, haviam, dependendo da década, opções como Pau-de-Arara que já era coberto, um deles era do Sr. José Campos vindo do Mojuí dos Campos, ônibus que vinha de Belterra e Mojuí dos Campos e caminhonetes como do Miguel das Freiras.


Abaixo alguns registros:
Senhor Dário Sampaio: O primeiro da sua esquerda (leitor). Abaixo um modelo ilustrativo de um dos tipos de caminhão usado no transporte.

Pau de Arara na Estrada de Rodagem Santarém Cuiabá - era este mesmo.


Exemplo ilustrativo apenas de como os passageiros iam no caminhão


Exemplo ilustrativo apenas de como as pessoas iam sentadas, algumas.
Zé Piolho, um dos motoristas citados (Foto na festa de São Francisco em São José) fornecida pela moradora  Rosineide

Apenas ilustrativa como exemplo aproximado sobre como era o frete dos usineiros, só não era tão alto.





Aqui buscou-se colocar em cena o dilema vivenciado tanto pelos moradores da comunidade, desde os primeiros até aproxidamente a década de 80. Os desafios deles dos quais parte vivenciados por estes que vos escrevem,  foram intensos e constantes, no entanto todos foram enfrentados de frente e com bravura. 

Nosso intuito além de mostrar um pouco da história real para as atuais e futuras gerações, uma vez que ficará na rede mundial onde está acessível a todos que tenham possibilidade de acesso, é, também, de que com estes exemplos citados, pessoas possam sentir-se motivadas a não desistir de seus objetivos, sintam-se inspiradas para seguir em frente sabendo que as dificuldades sempre estarão a sua frente mas tendo a certeza de que se ela buscar suas próprias forças, lembrar dos esforços e das conquistas dos antepassados e acima de tudo confiança no Ser supremo que é Deus, irá conseguir e vencerá e assim deixará escrito também na história seus feitos e viverá em paz com sua consciência. 


Agradecimentos ao amigo Dorivaldo Sampaio em Santarém, grande colaborador deste artigo e de muitos outros.





































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